O QUE É ESCUTA COMPASSIVA

Apresentação

Este Guia de Referenciais para a Escuta Compassiva tem o objetivo de oferecer a você um conjunto de ferramentas analíticas e contemplativas que podem ser úteis nesses tempos de pandemia e sofrimento social. Nossa ideia é que você treine e aprenda mais sobre a arte da escuta compassiva que é sempre profunda, acolhedora e apreciativa.

 

Seja você um profissional da saúde de linha de frente no enfrentamento da pandemia, um agente comunitário engajado, um familiar atento, seja quem você for na situação que achar mais propícia, lá estará a adequação dos referencias para uma escuta compassiva. Oferecer aos outros algum suporte de acolhimento e escuta sensível que contribua para redução de suas aflições e ansiedades é sempre o caso.

 

Escuta Compassiva também é o nome do coletivo de psicólogas e psicólogos voluntários que desde o mês de maio de 2020 tem se proposto ouvir, amparar e orientar gratuitamente pessoas e grupos vulneráveis. Estamos abertos a todos os chamados mas, o nosso foco prioritário é o tipo de sofrimento psi ocasionado por confinamento, estresse, luto e outras situações de risco e suscetibilidade decorrentes da pandemia por Covid-19. Até o fim da pandemia é nosso propósito fazer acolhimento através de escuta online, de modo que, as pessoas e grupos se sintam mais valorizados, mais confortáveis, seguros, menos solitários e fragilizados.

 

Esperamos que este guia seja de alguma utilidade para você. Temos um forte desejo de ver as pessoas sofrendo menos e somando mais capacidades e habilidades para agirem melhor com as circunstâncias a sua volta. Se a partir desta leitura você se sentir compelida ou compelido a melhorar o modo como vê a si mesmo e aos outros, não importando se são amigos ou inimigos, então nosso trabalho já terá valido a pena. Conseguir lidar com a sua própria dor e a dor do outro de modo mais hábil, interessado, aberto e amoroso certamente vai resultar em felicidade genuína por todos os lados.

 

O que é escutar com COMPAIXÃO?

"Queridos amigos, queridas pessoas, eu sei que vocês estão sofrendo muito. Eu não entendi o bastante sobre as suas dificuldades e sofrimentos, mas não é minha intenção fazer vocês sofrerem mais. Pelo contrário, então, por favor conte-nos sobre o seu sofrimento e as suas dificuldades. Estou ansioso para aprender e entender." (Thich Nhat Hanh)

Quando pensamos em escuta compassiva nossas principais fontes de inspiração vem dos mestres budistas como Dalai Lama, Thich Nhat Hanh e Lama Padma Samten. Certamente é imensa a lista de seres compassivos, homens e mulheres, de todas as tradições e épocas que podem nos ensinar, através de seus exemplos, qual a atitude básica para uma escuta compassiva genuína. Mas aqui vamos nos reportar a esses três professores como que representantes da manifestação de sabedoria e lucidez de incontáveis seres que podemos encontrar em todos os lugares e tempos.


Por meio de uma genuína escuta compassiva ampliamos muito as possibilidades de ajudar a reduzir o nosso próprio sofrimento e o sofrimento de pessoas e grupos ao nosso redor. Uma atitude compassiva vai além de manifestarmos empatia pela dor do outro. Ela envolve um senso de doação e abertura fundados na razão e num sentimento altruísta que é capaz de se manifestar como intransigente defesa da dignidade e da importância seja de quem for. Portanto, a escuta compassiva é uma escuta ativa, não excludente, profunda e apreciativa que sabemos que existe e está ocorrendo quando o único propósito de uma ação é ajudar as pessoas e os seres todos a sofrerem menos, sem que para isso nós mesmos precisemos sofrer mais.


Compaixão também é mais do que ser resiliente e tolerante, condição típica de relações adaptativas em meios continuamente estressores. Na escuta compassiva é possível que as pessoas em sofrimento nos digam coisas cheias de percepções errôneas, repletas de amargura e julgamentos, mesmo assim, compreendendo a profundidade e tendo treinado muito para o escutar compassivo, seremos capazes de continuar abertos para o outro. Trocaremos resiliência e tolerância por aberturta e aceitação radical da nossa humanidade comum.

A escuta compassiva é aprimorada quando nos inserimos num panorama mais amplo. Podemos resolver a maioria de nossos problemas desenvolvendo um senso de responsabilidade universal que se traduz por procurar fazer as coisas para os outros sem egoísmo e motivados por sentimentos de doação, conectividade e entendimento profundo. Assim, como ensina o Dalai Lama, acreditamos que dentre as qualidades humanas fundamentais situam-se a bondade amorosa e a capacidade de perdoar. Junte-se a essas qualidades a nossa curiosidade inerente, interesse e entusiasmo por investigar todas as coisas e eis aí um caminho infalível para transcendermos o medo e a aflição.

Por fim, uma escuta compassiva é convergente e não exclui nada, nem ninguém. Quem escuta com compaixão está ajudando a estabelecer uma cultura de paz. Também reconhece o valor da imensa rede solidária mundial feita por pessoas, grupos e instituições que vem agindo para o fortalecimento e ampliação das qualidades positivas naturais dos outros. Os escutadores compassivos são ativos e engajados de um modo muito objetivo: estão sempre desejosos de agirem no mundo para muito além ou aquém dos jogos de interesses particulares que se manifestam quase sempre como auto-sabotagem dos nossos potenciais para o florescimento psicológico.

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Primeiros passos para a

ESCUTA COMPASSIVA

Escutar compassivamente sugere praticar amorosidade, paciência e abertura consigo mesmo e com os outros. Para começar a dar os primeiros passos nesta direção que tal ler e reler os conselhos abaixo? Você pode ler sem pressa cada uma das sentenças, seguir refletindo internamente ou debater com amigos. O importante é que você investigue se os referenciais que apresentamos aqui fazem sentido para você ou não. Se não fizerem, não perca tempo, siga procurando por aquilo que possa lhe trazer verdadeira satisfação nesta existência. Mas se perceber que os fundamentos da escuta compassiva fazem sentido, então providencie o que for necessário, e tão logo seja possível, incorpore esses referenciais em sua própria vida e em suas redes de relacionamento.

1. Tenha um único objetivo: que é ajudar as pessoas a sofrerem menos. As pessoas sempre buscam segurança, cuidado, proteção e senso de pertencimento, mas frequentemente suas ações lhes colocam no lado oposto destas conquistas. Não tenha pressa! Guarde um bom momento para pensar nisso.

2. Permita: que as pessoas sejam escutadas e digam o que estiver em seus corações. As pessoas geralmente não sabem como localizar e desbloquear o que lhes impede de conseguirem o que mais desejam. Tente lembrar de algum momento de sua vida em que você conseguiu oferecer a alguém espaço para que ela falasse o que viesse em seu coração, sem que sua escuta fosse contaminada por julgamentos e falas internas paralelas, mesmo que o motivo da fala fosse você.

3. Esteja atenta(o): pois as pessoas quando tem a oportunidade de falar e não são ouvidas, podem ser arrastadas por emoções e sentimentos como medo, raiva, tristeza, decepção e ansiedade. E você é uma pessoa, portanto, quando estiver escutando apenas escute. Quando estiver falando, apenas fale. Tente lembrar de alguma permissão que você gostaria de ter dado ao outro para que ele pudesse falar o que lhe viesse em seu coração, mas que não tenha ocorrido porque você se sentiu atingido diretamente e se tornando reativo e emocional conseguiu apenas se afastar mais da pessoa.

4. Cultive paciência: porque a outra pessoa pode dizer algo duro, provocativo, ou repleto de culpa, julgamentos ou percepções errôneas. E é apenas você quem está se propondo escutar com o coração da compaixão. Cultivar paciência começa com uma intenção de conter-se. A raiva do outro é dele. A sua é sua. Deseje ser uma pessoa paciente e conecte essa intenção com uma vontade de ampliar-se. Foco diário na respiração e no corpo ajuda muito, mas é só o começo.

5. Respire corretamente: deste modo você estará protegido e não importa o que o outro diga ele não tocará na energia da irritação ou da raiva em você. Antes, durante e depois de uma escuta compassiva, você pode treinar o foco no inspirar e no expirar. Quando você faz isso com orientação e coletivos de pessoas que respiram juntos, então você aprende mais rápido a respirar corretamente com quem precisa da sua capacidade de escuta.

6. Contemple: escutando o outro você tem a oportunidade de aprender sobre as suas próprias percepções, forças e fragilidades e sobre o modo como incontáveis mundos ganham existência. E a aprendizagem nos põe mais afiados para acompanharmos o movimento incessante de vai e vem de todas as coisas. Aprendizagem aqui quer dizer, aprendizagem contemplativa. Com meditação, estudo e mudança de estilo de vida, não há como se perder.

7. Relaxe, conecte-se: o outro abrirá seu coração para você,a porque ele perceberá que há verdade e honestidade sob forma de atenção amorosa, compreensão, aceitação e disponibilidade. Sua própria experiência conta muito. Nossas histórias de vida, com tudo dentro, vitórias e derrotas, podem gerar vínculo, engajamento e radicalidade compassiva. Por mais paradoxal que possa parecer, na escuta compassiva, aos poucos, despersonalizamos a angústia e a aflição, deslocando-as de escutador e escutado para o contexto em que se manifesta.

8. Solte, abra mão: a escuta compassiva não julga, não critica e não fixa o outro em lugares apertados. Soltar-se e abrir mão de querer salvar o outro é condição para uma escuta compassiva radical. Na medida em que o outro se abre, você irá perceber que muito movimento emocional pode se desprender de dentro de você. Ao invés de ceder ao juiz e o acusador interno, experimente apenas escutá-los e respirar com eles.

9. Evite o utilitarismo: procure notar quando surge uma vontade de querer algo do outro que tem uma única intenção que é satisfazer um desejo pessoal seu. Por mais sutil que seja essa experiência, ela pode ser localizada e liberada. A escuta utilitária não é escuta, portanto, certifique-se de que a sua escuta apenas oferece ao outro e não condiciona algum retorno ou ganho como forma de recompensa ou reconhecimento.

10. Esvaziar-se como arte: pois é muito comum acharmos que estamos escutando, mas bem ao contrário podemos estar é na verdade nos enchendo de ideias e diálogos internos que ampliam ruído e interferência. Estar atento e vigilante é o caso. Esvaziar-se, soltar, relaxar, abrir-se, permitir e escutar são sinônimos. É sempre bom aprender alguma arte e esvaziar-se vale a pena porque é desafiador e nos coloca de frente com a nossa própria face.

11. Treine continuamente: para tranqüilizar o corpo, a escuta e a mente. Domar e pacificar seus próprios impulsos por agressão e controle são um ótimo exercício pessoal. Portanto, tão logo se sinta segura(o), conecte-se com a imensa rede compassiva de treinamento da mente que está espalhada em todos os lugares, e não tenha receio de pedir ajuda para aprender e se especializar.

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